Página em branco

Escrevo o livro, uma página por dia.
Havia há muito fechado a capa dura,
crua, despida e vazia de um título.
Repentinamente reparei que ardia
a ponta da caneta que feroz fura
o papel branco, em tons de nulo.
Vejo que jamais pousei a caneta,
mas que apenas me faltou tinta.
Tinta que nas veias corre, escorre
quando a alma está completa.
Sempre traduz, de forma distinta,
o insuflado sentimento que ocorre
das paredes da individualidade.

Em verso ou frases corridas,
tornam-se ôcas as palavras.
Sussurros de outras vidas,
das quais não te livras
por muitas portas que abras.
Numa das portas outra história,
saqueadora de conformismo,
lentamente aviva a memória
e provoca em mim um sismo.
Um forte abalo às convicções,
que me puxou do abismo
e me devolveu fortes paixões.

Poderá parecer vaidade,
mas duvido que exista
alguém que mais sinta
tamanha saudade.