Uma montanha de nada

Quinze anos volvidos e sinto-me de novo adolescente.
Um pouco mais maduro, calmo e consciente.
Voltas que dá a vida não apagam a memória,
não extinguem sentimentos ou mudam a história.

Palavras desertas, abandonadas há demasiado,
nunca estarão completas se estou eu abandonado.
Mudanças existiram e diferentes fases passaram,
mas a beleza, essa, não sentiu o peso dos anos
e continuou crescendo, de forma sublime mas subtil.
Elogios feitos caírão como uma gota de água no deserto,
sempre bemvinda, mas evaporando decerto.


Aquece-me o sangue e rosa-me a cara
a cada instante de tua atenção, tão rara.
Por indefinidas situações da vida
logo te vais... E o que sinto agora
são gotas de chuva que me resfriam a alma.


Com a calma de uma preguiça me ergo
e me prego numa cruz imaginária
de dor autoflagelada, cortante de tão afiada.
Tudo parecem ser tremores da máquina
que palpita agora mais fraca, cansada
de um caminho longo, cheio de surpresas,
onde a cada simples dobrar de esquina
pode estar uma montanha de nada.


Diria que é um sentimento forte,
mas talvez não campeão olímpico.
Pensaria que difícil é ter sorte,
pois seria demasiado atípico.
Escolho modestamente cada palavra,
tentando não exagerar no dito.
Dedos meus um agricultor que lavra
a pradaria de tamanho infinito.
Veias em autoestradas transformadas,
levam mensagem às partes interessadas,
onde de gelo se faz fogo e brasas,
escaldantes como cabelos loiros,
como uma capa d'oiro e brilho
intenso que fere a visão, sem dor,
que fere o coração, sem amor.


Dedos entrelaçados, onde não te distingo de mim.
Olhos cristalinos, um olhar brilhante...
Um coração gritante, mas tão distante,
que me provoca e me derruba e fico assim.